Mário Sacramento

Intervenção de Jorge Seabra na Sessão Evocativa de Mário Sacramento em 14 de Junho de 2019

 

Mário Sacramento – Meio século depois 

Caros camaradas e amigos: 

Julgo que o que primeiro me vem à ideia, no início desta singela mas sincera 
homenagem  de  amigos,  conterrâneos,  admiradores  e  companheiros
políticos de Mário Sacramento, é o “Mário Emílio” de que tanto ouvia falar 
em casa na minha infância, depois passado no meu trato a “doutor Mário” 
com o respeito amistoso de um jovem para com um dos melhores amigos 
do  pai,  um  ser  próximo  e  distante,  envolto  numa  aura  de  afectividade  e 
admiração.  Mas  foi  já  estudante  universitário  que  alcancei  a essência  do 
que  ele  representava  para  Aveiro  e  para  o  País,  como  ensaísta,  escritor, 
intelectual  e  acima  de  tudo,  cidadão,  uma  mente  rara  que  surge 
episodicamente numa geração.

É, pois, a dificuldade de estar à altura, de transmitir de alguma forma e com 
o  rigor  que ele  próprio exigiria,  a memória  da  sua  figura  notável  que,  na 
demasiado curta passagem pela vida  do país e do povo que tanto amou, 
deixou  uma  marca  indelével  que  os  preconceitos  e  ventos  politicamente 
adversos não conseguem apagar. 

Talvez começar pelo fim. Pelas últimas e icónicas palavras da sua “Carta-
testamento” deixada, numa meia-idade quando ainda poucos pensam na 
sua finitude, “aos mais adiados”, afinal, a todos nós.  

Palavras  simples  e  sempre  citadas  por  resumirem  a  riqueza  e  a 
complexidade de uma vivência excepcional, sintetizando o mais profundo 
dos seus desígnios, embebidas pelo altruísmo e sentido humanista, com o 
toque de humor que lhe era tão próprio: 

“Façam o mundo melhor, ouviram! Não me façam voltar cá!”. 

Mente precoce e rara, (aos 25 anos escreveu “Eça de Queirós - Uma estética 
da  ironia”,  fazendo,  nas  palavras  de  Vergílio  Ferreira,  “um  fulgurante 
aparecimento no meio literário”, iria depois desenvolver e aprofundar essa 
presença  com  “Fernando  Pessoa-poeta  da  hora  absurda”,  “Teatro 
Anatómico”, “Fernando Namora – O homem e a obra”, “Há uma estética 
neo-realista?” ou o “Boi Ápis”,  belo conto para crianças e adultos, e outros 
textos publicados já a título póstumo como “Ensaios de Domingo”, “Frátia 
– diálogo com os católicos”, ou o “Diário”. 

 

 


 

Médico  generoso  e  competente,  que me diagnosticou e tratou de uma úlcera duodenal, 
democrata,  escritor,  crítico  e  ensaísta  literário  de  enorme  prestígio,  uma 
marca  de  brilho  com  o  poder  de  influenciar  os  melhores  dos  seus 
contemporâneos,  dele  disse  Fernando  Namora:  “se  houve  figura 
significativa na minha geração literária, foi Mário Sacramento.”.
 

Intelectual de uma cultura imensa que conseguiu ultrapassar a fronteira dos 
limitados  meios  de  uma  cidade  da  província  demasiado  distante  das 
tertúlias  influentes  da  capital,  Mário  Sacramento  foi  tudo  o  que  os  aqui 
presentes bem conhecem, e que se me torna redundante sublinhar. 

Sobre  a  luta  contra  o  provincianismo,  perdoem-me  que  me  aproveite  do 
brilho  da  pena  de  Mário  Castrim,  conhecido  jornalista  e  crítico  já 
desaparecido,  também  militante  do  PCP,  outro  filho  desta  terra  que  não 
deu só bons capitães do bacalhau: 

“Há  duas  formas  de  provinciano  nas  nossas  relações  com  D.  Sebastião: 
aquele que se queda imóvel no seu palmo de chão à espera que ele venha e 
o  outro  que  abandona  o  palmo  de  chão  para  ir  ao  encontro  dele.  No 
primeiro caso, o palmo de terra acaba por alargar-se até se transformar em 
cinco  palmos  e  nele  caber  um  caixão;  no  segundo,  a  aventura  poderá 
soçobrar no indefinido da distância, na imprecisão dos gestos, na incorrecta 
visão dos contornos roídos pela névoa. Porque D. Sebastião morreu, porque 
D. Sebastião já não há: só há nevoeiro que o trespassou e engoliu e com o 
qual o próprio D. Sebastião se identifica. 

Mário Sacramento não ficou à espera nem partiu ao encontro. Não fugiu 
cego pelas perspetivas, pelas possibilidades de outros meios. Não se iludiu 
na suposição que em Lisboa é que sim. Por outro lado, não se resignou ao 
vácuo,  à  estagnação  do  meio.  Transportou  consigo  a  província  para  a 
cidade.  Transportou  consigo  o  mundo  para  a  terra  pequena.  Numa 
sociedade  onde  se  normaliza  a  exploração  do  homem  pelo  homem,  a 
defraudação  do  humano  pelo  desumano,  onde  se  elege  a  capacidade  de 
matar como uma qualidade  merecedora de elogio  e de prémio, numa tal 
sociedade não existem portos de abrigo(…).Mário Sacramento lutou contra 
a província dentro da província.” 

Aveiro, também chamada de “Berço da Liberdade”, talvez hoje mais difícil 
de reconhecer como tal em algumas das suas escolhas, ainda lhe deve esse 
seu  contributo.  Na  produção  literária,  nos  colóquios,  debates  e 

 

 


 

intervenções  em  que  ele,  com  o  espírito  aberto  mas  crítico  de  cientista 
social, livre de estéreis sebastianismos, se exportou, e na organização dos 
três  Congressos  da  Oposição  que  convocaram  o  país  e  as  atenções 
internacionais  para  Aveiro,  os  dois  últimos  a  que  já  não  assistiu,  mas 
realizados à sombra da sua figura tutelar precocemente desaparecida.  

Ultrapassando  a  dilemática  contradição do  “ser”  e  do  “dever”,  o  conflito 
entre a “ideia” e a “acção” referida por Vergílio Ferreira que considerou ter 
sido a última a ganhar, Mário Sacramento pode ter cortado no volume da 
sua escrita e na duração da própria vida gasta no aproveitar do tempo, mas 
não  no  sacrifício  da  sua  invulgar  qualidade,  nunca  faltando  ao  dever  de 
cidadão do Mundo e da Humanidade, o dever que se afirma em “O  meu 
ofício, a minha arte, é a vida mas é, em primeira mão, a vida dos outros”. 

A  propósito  de  Casal  Monteiro  que,  do  Brasil,  perguntava  a  um  amigo 
comum “o que era feito de Mário Sacramento?”, respondia ele com a sua 
elegante ironia que ao “era feito”, no passivo, preferia o “fazer”, no activo. 

De resto, Mário Sacramento, fazia.  E sabia bem o que fazia, como fazer e 
com  quem  fazer.    Contando  com  todos,  pelo  menos  com  todos  os  que 
podiam  contribuir  honestamente  para  uma  sociedade  mais  justa  e 
democrática, fossem republicanos, católicos, ateus, sociais-democratas ou 
até monárquicos, e havia um bom molhe de gente assim na Aveiro desses 
tempos, quase todos infelizmente já desaparecidos.  

A unidade. As pontes entre quem estava disponível para a luta antifascista 
e pela liberdade. Com a juventude, claro. Com os jovens, nomeadamente 
com os muitos que se organizaram na Juventude Democrática de Aveiro, 
que ele sempre apoiou e para os quais representou um farol inspirador.  

A democracia, contudo, para Mário Sacramento, intelectual marxista, não 
se resumia à conquista urgente e indispensável das liberdades políticas, só 
sendo  plenamente  realizada  quando  acompanhada  pela  democratização 
económica e social das estruturas produtivas.  

Como refere em Fátria, “a mola real da evolução histórica reside, não na 
superestrutura ideológica, qualquer que ela seja, mas nas contradições que 
a infra-estrutura económica-social estabelece entre os meios de produção e 
as relações de propriedade respectivas, as quais, a partir de certo momento, 
criam conflitos de tal forma insanáveis que só uma nova organização social 
pode resolvê-los.”
  

 

 


 

Nessa luta por um mundo melhor, Mário Sacramento, militante comunista, 
que assim exprime os princípios essenciais do materialismo dialético e da 
sua aplicação ao processo histórico de libertação da Humanidade, foi por 
isso  censurado,  perseguido,  preso,  torturado,  sofrendo  a  perseguição 
brutal que a Ditadura lhe moveu: 

“Nasci e vivi num mundo de inferno. Há dezenas de anos que sofro, 
na  minha  carne  e  no  meu  espírito,  o  fascismo.  Recebi  dele 
perseguições de toda a ordem – físicas, económicas, profissionais, 
intelectuais, morais. Mas, que as não tivesse sofrido, o meu dever 
era combatê-lo (…) Fiz o que me foi possível para me libertar, e aos 
outros, dele. É essa a única herança que deixo aos meus Filhos e 
aos meus Companheiros. Acabem a obra! Derrubem o fascismo, 
se  nós  não  o  pudermos  fazer  antes!  Instaurem  uma  sociedade 
humana!  Promovam  o  socialismo,  mas  promovam-no 
cientificamente,  sem  dogmatismos  sectários,  sem  radicalismos 
pequeno-burgueses!  Aprendam  com  os  erros  do  passado!  E 
lembrem-se  que  nós,  os  mortos,  iremos  nisso  ao  vosso  lado!”. 
(Carta- Testamento, Abril, 1967).  

Talvez  possamos  aproveitar  o  momento  para  um  pequeno 
balanço  do  meio  século  que  passou  e  às  tarefas  de  que  Mário 
Sacramento nos incumbiu, nesse último apelo. 

Quanto ao derrube do fascismo - anunciado já no seu último ano 
de vida com cem mil operários em greve e a luta estudantil em 
Coimbra -, a missão foi cumprida com os Cravos de Abril e o fim 
da guerra, satisfatoriamente e sem demora. E, ao contrário do que 
acontece  em  meia  Europa,  por  aqui  ainda  ele  não  levanta 
demasiado a cabeça, pelo menos de forma descarada.  

A  crise  financeira  e  especulativa  de  2008,  que  levou  ao  agudizar  das  desigualdades  e 
injustiças sociais, com o desprestígio  dos partidos do chamado “arco do poder” e das 
instituições democráticas corroídas pela corrupção e pela subserviência aos interesses 
da banca e do grande capital. 

 

 


 

A Europa da União Europeia , que, é bom dizer, não é união nem 
é dos europeus, apregoada como a nova pátria do leite e do mel, 
deixou cair a açucarada máscara de “Europa das Nações”, “Europa 
dos  cidadãos”,  “Europa  Social”,  pondo  ao  léu  a  sua  verdadeira 
alma: a “Europa do grande capital”, a “Europa dos mercados”, a 
Europa que interessa aos grandes onde os pequenos não têm igual 
soberania. 

Como disse Mário Sacramento, a 31 de Janeiro de 1969, no seu 
último e extraordinário discurso: 

“Distinguir  o  falso  do  verdadeiro  proprietário  –  seja  ele  inglês, 
americano  ou  alemão  –  é  um  passo  fundamental  que  desde 
sempre se nos impôs dar para que a Pátria seja verdadeiramente 
nossa e como tal, soberana e livre.”. 

Sabemos, pois, o que pensaria da privatização e entrega a capitais 
estrangeiros,  por  governos  do  PS,  PSD  e  CDS,  de  sectores 
estratégicos do país ligados à energia, telecomunicações, banca, 
seguros, transportes, saúde, cimentos, correios, portos, estradas 
e aeroportos, feitas sob a batuta da União Europeia. 

Muitos  portugueses  pensarão  “De  dono  mudámos,  na  mesma 
ficámos”
,  como  escreveu  Augusto  Monteiro,  nas  suas  “Três 
estórias  (pouco)  doces”,  meu  companheiro  de  tertúlia  em 
Coimbra. 

 Se hoje Mário Sacramente olhasse a Europa em que quem tem 
poder  (Conselho,  Comissão,  BCE,  Eurogrupo)  não  é  eleito  nem 
responde  perante  os  cidadãos,  -    a  Europa  dos  tratados  e  das 
regras  não  plebiscitadas,  a  Europa  do  diktat  alemão,  aceite  e 
apregoado  como  natural  por  governantes  e  comentadores 
subservientes, a Europa dos ultimatos e da agressão económica 
aos “PIGS”, os preguiçosos do Sul, onde Portugal é a primeira letra 
do insulto e a Grécia o maior exemplo da arrogante ingerência, do 

 

 


 

espezinhar e da traição ao seu povo -, não tenho dúvidas que a 
desprezaria.  

A  Europa  racista  e  xenófoba  que  afoga  no  Mediterrâneo  os 
refugiados  das  guerras  que  ajudou  a  desencadear,  culpando-os 
depois do terrorismo criado com a seu apoio ou nascido no seio 
das  suas  próprias  distopias,  não  poderia  ter  da  parte  de  Mário 
Sacramento qualquer condescendência. 

A  Europa  do  desprezo  pelo  “outro”,  pelo  “estranho”,  pelo  “árabe”  (seja  afegão, 
iraquiano,  iemenita,  líbio,  sírio  ou  palestiniano),  mostrando  a  mesma  indiferença  e 
desumanidade que, nos anos do nazi-fascismo, teve como alvo o “judeu”, então eleito 
como bode expiatório, é uma Europa que apenas poderia ter a mais firme oposição por 
parte de um homem como ele. 

Não  seria,  também,  para  ele,  estranho,  o  ressurgimento  de 
sombras do pesadelo fascista como forma alternativa de domínio 
do  grande  capital  em  muitos  países  dessa  Europa,  com 
progressivo  apagamento  das  liberdades  políticas  e  de 
representação democrática. 

Como nos avisou no citado discurso de 31 de Janeiro, referindo-se 
às  limitações  de  classe  e  à  simples  “mudança  de  patrão”  da 
Primeira República,  criando o caldo de cultura que abriu as portas à 
ditadura do “Estado Novo”: 

“Foi  António  Sérgio,  o  grande  pensador  e  democrata,  quem 
melhor  expôs  essa  absurda  e  estagnada  contradição  que  os 
republicanos  da  propaganda  tentaram  resolver  em  termos  de 
regime  apenas.  Não  o  conseguiram,  como  vistes.  E  não  o 
conseguiram porque não democratizaram suficientemente o país 
no plano das estruturas económicas e sociais, de modo a tornarem 
impossível  a  perpetuação  do  logro  e,  para  além  dele,  a 
contrarrevolução que envolvia. 

E  acrescentava:  Onde  os  privilégios  económicos  subsistem,  os 
direitos  políticos  não  estão  enraizados  e  podem  ser  coarctados 

 

 


 

sem dificuldade. A política não é mais do que a cúpula do edifício societário. Pode ser pintada de mil 
maneiras, mas não deixa por isso, de fazer corpo com as paredes que a sustentam.

” 

 

Quanto  ao  outro  apelo  da  sua  mensagem  -  a  promoção  do 
socialismo -, depois de alguns avanços, com os primeiros passos das 
nacionalizações e da reforma agrária no nosso país, 

tudo voltou a andar 

para trás. 

Aqui,  como  na  Europa  e  no  Mundo,  com  o  desabar  político  do 
Leste Europeu, que criou um desequilíbrio maligno (como ainda esta semana reconheceu 

o  insuspeito  João  Soares,  no  programa  “Circulatura  do  Quadrado”),

  chegou  o 

crescimento da arrogância do capitalismo selvagem já despido de 
pruridos, com a onda dos monetaristas de Chicago.  

 

Mas  a história  não  acabou, nem acaba neste tempo de refluxo, 
como  pretendeu  Fukoyama,  nem  com  a  rendição  de 
“eurocomunistas de rosto humano”, “socialistas moderados” ou 
sociais-democratas às teses de Gidden, Standing ou de André Gorz 
que  procuram  fornecer  um  substrato  filosófico  ao  “pós-
iluminismo”  ao  “pós-modernismo”,  a  uma  “terceira  via”  que, 
como logo se percebeu, não é nenhuma via nova mas apenas o 
diáfano manto em que se esconde o abandono de Keynes e até da 
“doutrina social da igreja”, e o desaguar na colaboração da maior 
exploração do trabalho pelo grande capital. 

E embora 2010 tenha sido considerado, pela ONU, o ano em que 
a produção global de riqueza alcançou a capacidade de dar boas 
condições de vida a toda a população do planeta, as desigualdades 
agravaram-se de tal forma que mais de 80% da riqueza criada em 
2017 foi parar às mãos aos 1% mais ricos, conforme o relatório da 
Oxfam de 2018. 

 

 


 

É essa obscena desigualdade e extensão da miséria num mundo 
que  cada  vez  produz  mais  riqueza,  que  procura  ser  justificada 
pelos teóricos da chamada sociedade pós-moderna e pós “estado 
social”,  que  defendem  as  vantagens  da  “liberdade  de  não  ter 
emprego”
,  o  despedimento  como  “uma  nova  oportunidade”  a 
excelência do trabalho pago à peça de uma sociedade pós-salarial, 
onde a cada um, cabe, isoladamente e sem qualquer sentido de 
solidariedade,  encontrar  a  forma  de  merecer  o  que  recebe, 
porque  já  nada  é  possível  mudar  de  essencial,  e  qualquer 
mudança de poder apenas reconstrói um poder sucedâneo com 
iguais falhas e defeitos. 

É nessas filosofias de “pessimismo social”, em que se apregoa a 
ilusória possibilidade de reencontrar o sentido da vida fazendo do 
tempo o que se quiser (como se todos fossem fidalgos rentistas 
ou milionários), sem  os constrangimentos de um  “trabalho fixo, 
monótono  ou  repetitivo”,  nem  salários  ou  subsídios  garantidos 
que  só  alimentam  a  estagnação  e  a  preguiça,  que  elogia  os 
“empreendedores”  que  criam  o  próprio  emprego,  atirando  o 
desemprego  para  a  responsabilidade  individual  e  não  para  a 
política  predadora  dos  mercados,  aceitando,  se  necessário,  “a 
felicidade da pobreza”. 

Como denuncia Cabral Pinto num seu recente trabalho, “na linha 
programática  dos  governos  de  Reagan  e  Clinton,  também  na 
Europa  o  
welfare  tomou  a  forma  de  workfare  (termo  difundido 
por Nixon)

“Nem todos os pobres estão isentos de culpa. De qualquer forma, 
a pobreza, em si mesma não constitui um mal. “Que mal há em ser 
pobre?”-,  pergunta  Giddens  com  palavras  de  Charles  Murray.  A 
felicidade não depende de bens materiais. O pobre não tem menos 

 

 


 

hipóteses de ser feliz do que o rico e não é o Estado de bem-estar 
que lhe garante felicidade”.  

Conversa  da  treta,  poderão  dizer,  que  dificilmente  convence 
quem sofre as agruras da miséria e a violência da marginalização 
social,  e  que  ofende  quem  trabalha  com  baixos  salários  ou 
desespera  na  insegurança  da  precariedade  ou  no  desemprego, 
travando  uma  constante  e  alienante  luta  pela  subsistência, 
mesmo tendo alguma formação académica.  

Conversa  cujo  sentido  ideológico,  socialmente  regressivo,  não 
causa dúvidas a quem tem uma compreensão mais profunda das 
contradições intrínsecas da sociedade capitalista e da destruição 
económica e social que ela arrasta.  

Conversa, de resto, que só é sustentada pelo martelar repetitivo 
e  dominante  desse  “pensamento  único”,  impingido  como 
“normal”  e  “moderado”,  continuamente  propagandeado  pelos 
meios de comunicação que procuram condicionar ou anestesiar a 
opinião dos cidadãos, nomeadamente dos mais jovens, levados a 
acreditar no “american dream” do neoliberalismo e na capacidade 
de, com o esforço, poderem vir a ganhar o Euromilhões. 

 

“Não me façam voltar cá!”, foi a brincalhona ameaça que Mário 
Sacramento  nos  deixou.  Será  de  reconhecer  que  só  não  o 
fazemos,  porque  não  podemos.  Bem  falta  nos  faz  poder  tê-lo 
outra  vez,  na  primeira  linha  de  combate  a  este  agiornamento 
teórico  da  direita  neoliberal  cada  vez  mais  agressiva  e 
exploradora. 

E se há alguém que se possa interrogar se a sua mente superior, 
com  o  conhecimento  das  contradições  e  recuos  do  evoluir  da  História, 
poderia ter hoje uma militância diferente da que outrora assumiu 

 

 


10 

 

como  comunista  e  militante  do  PCP,  é  porque  não  percebeu 
verdadeiramente a estrutura e as traves mestras da sua forma de 
pensar. 

Porque uma coisa é  ser materialista e dialético, o que implica o 
combate a um posicionamento fixista e sectário e o acreditar que 
existe  um  conhecimento  científico  da  evolução  social  da 
humanidade,  que,  como  tal,  não  está  acabado  e  merece  um 
constante olhar crítico. Outra muito diferente é abandoná-lo ou 
aceitar a sua substituição por estafadas teorias pseudocientíficas 
que tentam justificar um futuro imutável condenado a ser injusto 
e desumano, num devir de valores ideológicos independentes da 
infraestrutura  societária  e  do  caracter  privado  dos  meios  de 
produção. 

Como  referiu  Urbano  Tavares  Rodrigues,  Mário  Sacramento 
rejeitava a anemia ou a comodidade da indiferença:  “A terra de 
ninguém só dá cardos, se é que os dá.”. 

Mas se ainda houvesse interrogações, bastaria voltar ao que nos 
disse, para que não restassem dúvidas:    

“Foram  já  cem  os  erros  do  socialismo!?  Fossem  cem  mil  –  e 
socialistas seríamos!”. 

Socialistas  do  tal  socialismo  cientifico  será  bom  dizer,  “sem 
dogmatismos  sectários,  nem  radicalismos  pequeno-burgueses”, 
aprendendo com os erros do passado. Não um socialismo cinzento 
e de miséria, não um socialismo de caserna, como os seus inimigos 
o  descrevem.  Enfim,  o  que  os  mais  preconceitosos  ou  mais 
incultos  poderiam  designar  por  pensamento  de  um  comunista 
talvez heterodoxo mas com fé (como se o conhecimento racional 
fosse uma religião), sem perceberem essa afirmação de abertura 

 

 


11 

 

e  compreensão  do  outro,  como  uma  marca  intrínseca  de  um 
marxista coerente. 

A História é um que fazer incessante e nunca ninguém viu ou verá 
tudo aquilo porque se bateu ou luta, pois algo fica sempre a meio 
do caminho”,
 avisou-nos Mário Sacramento. 

Talvez não fosse de esperar que uma personagem de tal estatura, 
até  depois  de  morta,  pudesse  ser  tão  intencionalmente 
menorizada.  

Como recentemente escrevi, 

“o doloso apagamento do seu nome e 

da sua obra da memória colectiva do país, não tem desculpa ou 
justificação que não seja a da mais rasteira mesquinhez intelectual 
e ideológica. Esse arredamento da primeira linha merecida, não se 
consegue disfarçar  na toponímia de algumas ruas e  escolas das 
terras onde viveu, sem que a ele se faça a justiça merecida. 

E aqui estamos com - citando agora Mário Soares no período de 
luto imediato -, “o vivo sentimento de que não se trata de uma 
despedida, de uma última homenagem, mas sim uma homenagem 
provisória que antecipa a que a Nação um dia lhe prestará.” 

Mais  uma  promessa  não  cumprida,  pelo  ex-Presidente  da 
República que não deixou só o socialismo na gaveta. Não que as 
honrarias  interessassem  minimamente  ao  nosso  homenageado, 
se ele ainda aqui estivesse. Sabemos que não. Mas é uma dívida 
que nos cabe a nós exigir que seja paga.  

Talvez demore mais do que na altura julgávamos. Até aqui, nem 
honras nem medalhas, mesmo a título póstumo, como lamentou 
o seu neto, já que poucos ou nenhuns mais o mereceriam. Mas 
talvez  seja  melhor  assim,  pela  pobreza  de  alguma  companhia  e 
pela certeza de que, com os actuais usos e costumes, certamente 
as recusaria. 

 

 


12 

 

Quanto a outro ponto, no entanto, estamos de acordo com o ex-
Presidente que  não quis cumprir o compromisso quando podia. 
Porque se o murchar dos cravos não deixou que a excepcional vida 
de  resistente  e  intelectual  de  Mário  Sacramento  fosse 
devidamente  celebrada,  todas  as  singelas  homenagens,  como  a 
de  agora,  apenas  antecipam  a  que  um  dia  toda  a  Nação  lhe 
prestará. 

“Com dor e fogo, e não com palavras, aqui o repetimos. Para que 
não  esqueçamos  o  dever  de  o  mantermos  vivo”
  –  como  disse 
Namora. 

 

Jorge F. Seabra 

14-6-2019 

 

 

 

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