Mário Sacramento

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Mário Sacramento – Meio século depois

Caros camaradas e amigos:

Julgo que o que primeiro me vem à ideia, no início desta singela mas sincera
homenagem de amigos, conterrâneos, admiradores e companheiros
políticos de Mário Sacramento , é o “Mário Emílio” de que tanto ouvia falar
em casa na minha infância, depois passado no meu trato a “doutor Mário”
com o respeito amistoso de um jovem para com um dos melhores amigos
do pai, um ser próximo e distante, envolto numa aura de afectividade e
admiração. Mas foi já estudante universitário que alcancei a essência do
que ele representava para Aveiro e para o País, como ensaísta, escritor,
intelectual e acima de tudo, cidadão, uma mente rara que surge
episodicamente numa geração.

É, pois, a dificuldade de estar à altura, de transmitir de alguma forma e com
o rigor que ele próprio exigiria, a memória da sua figura notável que, na
demasiado curta passagem pela vida do país e do povo que tanto amou,
deixou uma marca indelével que os preconceitos e ventos politicamente
adversos não conseguem apagar.

Talvez começar pelo fim. Pelas últimas e icónicas palavras da sua “Carta-
testamento” deixada, numa meia-idade quando ainda poucos pensam na
sua finitude, “aos mais adiados”, afinal, a todos nós.

Palavras simples e sempre citadas por resumirem a riqueza e a
complexidade de uma vivência excepcional, sintetizando o mais profundo
dos seus desígnios, embebidas pelo altruísmo e sentido humanista, com o
toque de humor que lhe era tão próprio:

“Façam o mundo melhor, ouviram! Não me façam voltar cá!”.

Mente precoce e rara, (aos 25 anos escreveu “Eça de Queirós - Uma estética
da ironia”, fazendo, nas palavras de Vergílio Ferreira, “um fulgurante
aparecimento no meio literário”, iria depois desenvolver e aprofundar essa
presença com “Fernando Pessoa-poeta da hora absurda”, “Teatro
Anatómico”, “Fernando Namora – O homem e a obra”, “Há uma estética
neo-realista?” ou o “Boi Ápis”, belo conto para crianças e adultos, e outros
textos publicados já a título póstumo como “Ensaios de Domingo”, “Frátia
– diálogo com os católicos”, ou o “Diário”.

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Médico generoso e competente, que me diagnosticou e tratou de uma úlcera duodenal,
democrata, escritor, crítico e ensaísta literário de enorme prestígio, uma
marca de brilho com o poder de influenciar os melhores dos seus
contemporâneos, dele disse Fernando Namora: “se houve figura
significativa na minha geração literária, foi Mário Sacramento.”.

Intelectual de uma cultura imensa que conseguiu ultrapassar a fronteira dos
limitados meios de uma cidade da província demasiado distante das
tertúlias influentes da capital, Mário Sacramento foi tudo o que os aqui
presentes bem conhecem, e que se me torna redundante sublinhar.

Sobre a luta contra o provincianismo, perdoem-me que me aproveite do
brilho da pena de Mário Castrim, conhecido jornalista e crítico já
desaparecido, também militante do PCP, outro filho desta terra que não
deu só bons capitães do bacalhau:

“Há duas formas de provinciano nas nossas relações com D. Sebastião:
aquele que se queda imóvel no seu palmo de chão à espera que ele venha e
o outro que abandona o palmo de chão para ir ao encontro dele. No
primeiro caso, o palmo de terra acaba por alargar-se até se transformar em
cinco palmos e nele caber um caixão; no segundo, a aventura poderá
soçobrar no indefinido da distância, na imprecisão dos gestos, na incorrecta
visão dos contornos roídos pela névoa. Porque D. Sebastião morreu, porque
D. Sebastião já não há: só há nevoeiro que o trespassou e engoliu e com o
qual o próprio D. Sebastião se identifica.

Mário Sacramento não ficou à espera nem partiu ao encontro. Não fugiu
cego pelas perspetivas, pelas possibilidades de outros meios. Não se iludiu
na suposição que em Lisboa é que sim. Por outro lado, não se resignou ao
vácuo, à estagnação do meio. Transportou consigo a província para a
cidade. Transportou consigo o mundo para a terra pequena. Numa
sociedade onde se normaliza a exploração do homem pelo homem, a
defraudação do humano pelo desumano, onde se elege a capacidade de
matar como uma qualidade merecedora de elogio e de prémio, numa tal
sociedade não existem portos de abrigo(...).Mário Sacramento lutou contra
a província dentro da província.”

Aveiro, também chamada de “Berço da Liberdade”, talvez hoje mais difícil
de reconhecer como tal em algumas das suas escolhas, ainda lhe deve esse
seu contributo. Na produção literária, nos colóquios, debates e

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intervenções em que ele, com o espírito aberto mas crítico de cientista
social, livre de estéreis sebastianismos, se exportou, e na organização dos
três Congressos da Oposição que convocaram o país e as atenções
internacionais para Aveiro, os dois últimos a que já não assistiu, mas
realizados à sombra da sua figura tutelar precocemente desaparecida.

Ultrapassando a dilemática contradição do “ser” e do “dever”, o conflito
entre a “ideia” e a “acção” referida por Vergílio Ferreira que considerou ter
sido a última a ganhar, Mário Sacramento pode ter cortado no volume da
sua escrita e na duração da própria vida gasta no aproveitar do tempo, mas
não no sacrifício da sua invulgar qualidade, nunca faltando ao dever de
cidadão do Mundo e da Humanidade, o dever que se afirma em “O meu
ofício, a minha arte, é a vida mas é, em primeira mão, a vida dos outros”.

A propósito de Casal Monteiro que, do Brasil, perguntava a um amigo
comum “o que era feito de Mário Sacramento?”, respondia ele com a sua
elegante ironia que ao “era feito”, no passivo, preferia o “fazer”, no activo.

De resto, Mário Sacramento, fazia. E sabia bem o que fazia, como fazer e
com quem fazer. Contando com todos, pelo menos com todos os que
podiam contribuir honestamente para uma sociedade mais justa e
democrática, fossem republicanos, católicos, ateus, sociais-democratas ou
até monárquicos, e havia um bom molhe de gente assim na Aveiro desses
tempos, quase todos infelizmente já desaparecidos.

A unidade. As pontes entre quem estava disponível para a luta antifascista
e pela liberdade. Com a juventude, claro. Com os jovens, nomeadamente
com os muitos que se organizaram na Juventude Democrática de Aveiro,
que ele sempre apoiou e para os quais representou um farol inspirador.

A democracia, contudo, para Mário Sacramento, intelectual marxista, não
se resumia à conquista urgente e indispensável das liberdades políticas, só
sendo plenamente realizada quando acompanhada pela democratização
económica e social das estruturas produtivas.

Como refere em Fátria, “a mola real da evolução histórica reside, não na
superestrutura ideológica, qualquer que ela seja, mas nas contradições que
a infra-estrutura económica-social estabelece entre os meios de produção e
as relações de propriedade respectivas, as quais, a partir de certo momento,
criam conflitos de tal forma insanáveis que só uma nova organização social
pode resolvê-los.”

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Nessa luta por um mundo melhor, Mário Sacramento, militante comunista,
que assim exprime os princípios essenciais do materialismo dialético e da
sua aplicação ao processo histórico de libertação da Humanidade, foi por
isso censurado, perseguido, preso, torturado, sofrendo a perseguição
brutal que a Ditadura lhe moveu:

“Nasci e vivi num mundo de inferno. Há dezenas de anos que sofro,
na minha carne e no meu espírito, o fascismo. Recebi dele
perseguições de toda a ordem – físicas, económicas, profissionais,
intelectuais, morais. Mas, que as não tivesse sofrido, o meu dever
era combatê-lo (...) Fiz o que me foi possível para me libertar, e aos
outros, dele. É essa a única herança que deixo aos meus Filhos e
aos meus Companheiros. Acabem a obra! Derrubem o fascismo,
se nós não o pudermos fazer antes! Instaurem uma sociedade
humana! Promovam o socialismo, mas promovam-no
cientificamente, sem dogmatismos sectários, sem radicalismos
pequeno-burgueses! Aprendam com os erros do passado! E
lembrem-se que nós, os mortos, iremos nisso ao vosso lado!”.
(Carta- Testamento, Abril, 1967).

Talvez possamos aproveitar o momento para um pequeno
balanço do meio século que passou e às tarefas de que Mário
Sacramento nos incumbiu, nesse último apelo.

Quanto ao derrube do fascismo - anunciado já no seu último ano
de vida com cem mil operários em greve e a luta estudantil em
Coimbra -, a missão foi cumprida com os Cravos de Abril e o fim
da guerra, satisfatoriamente e sem demora. E, ao contrário do que
acontece em meia Europa, por aqui ainda ele não levanta
demasiado a cabeça, pelo menos de forma descarada.

A crise financeira e especulativa de 2008, que levou ao agudizar das desigualdades e
injustiças sociais, com o desprestígio dos partidos do chamado “arco do poder” e das
instituições democráticas corroídas pela corrupção e pela subserviência aos interesses
da banca e do grande capital.

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A Europa da União Europeia , que, é bom dizer, não é união nem
é dos europeus, apregoada como a nova pátria do leite e do mel,
deixou cair a açucarada máscara de “Europa das Nações”, “Europa
dos cidadãos”, “Europa Social”, pondo ao léu a sua verdadeira
alma: a “Europa do grande capital”, a “Europa dos mercados”, a
Europa que interessa aos grandes onde os pequenos não têm igual
soberania.

Como disse Mário Sacramento, a 31 de Janeiro de 1969, no seu
último e extraordinário discurso:

“Distinguir o falso do verdadeiro proprietário – seja ele inglês,
americano ou alemão – é um passo fundamental que desde
sempre se nos impôs dar para que a Pátria seja verdadeiramente
nossa e como tal, soberana e livre.”.

Sabemos, pois, o que pensaria da privatização e entrega a capitais
estrangeiros, por governos do PS, PSD e CDS, de sectores
estratégicos do país ligados à energia, telecomunicações, banca,
seguros, transportes, saúde, cimentos, correios, portos, estradas
e aeroportos, feitas sob a batuta da União Europeia.

Muitos portugueses pensarão “De dono mudámos, na mesma
ficámos”, como escreveu Augusto Monteiro, nas suas “Três
estórias (pouco) doces”, meu companheiro de tertúlia em
Coimbra.

Se hoje Mário Sacramente olhasse a Europa em que quem tem
poder (Conselho, Comissão, BCE, Eurogrupo) não é eleito nem
responde perante os cidadãos, - a Europa dos tratados e das
regras não plebiscitadas, a Europa do diktat alemão, aceite e
apregoado como natural por governantes e comentadores
subservientes, a Europa dos ultimatos e da agressão económica
aos “PIGS”, os preguiçosos do Sul, onde Portugal é a primeira letra
do insulto e a Grécia o maior exemplo da arrogante ingerência, do

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espezinhar e da traição ao seu povo -, não tenho dúvidas que a
desprezaria.

A Europa racista e xenófoba que afoga no Mediterrâneo os
refugiados das guerras que ajudou a desencadear, culpando-os
depois do terrorismo criado com a seu apoio ou nascido no seio
das suas próprias distopias, não poderia ter da parte de Mário
Sacramento qualquer condescendência.

A Europa do desprezo pelo “outro”, pelo “estranho”, pelo “árabe” (seja afegão,
iraquiano, iemenita, líbio, sírio ou palestiniano), mostrando a mesma indiferença e
desumanidade que, nos anos do nazi-fascismo, teve como alvo o “judeu”, então eleito
como bode expiatório, é uma Europa que apenas poderia ter a mais firme oposição por
parte de um homem como ele.

Não seria, também, para ele, estranho, o ressurgimento de
sombras do pesadelo fascista como forma alternativa de domínio
do grande capital em muitos países dessa Europa, com
progressivo apagamento das liberdades políticas e de
representação democrática.

Como nos avisou no citado discurso de 31 de Janeiro, referindo-se
às limitações de classe e à simples “mudança de patrão” da
Primeira República, criando o caldo de cultura que abriu as portas à
ditadura do “Estado Novo”:

“Foi António Sérgio, o grande pensador e democrata, quem
melhor expôs essa absurda e estagnada contradição que os
republicanos da propaganda tentaram resolver em termos de
regime apenas. Não o conseguiram, como vistes. E não o
conseguiram porque não democratizaram suficientemente o país
no plano das estruturas económicas e sociais, de modo a tornarem
impossível a perpetuação do logro e, para além dele, a
contrarrevolução que envolvia."

E acrescentava: Onde os privilégios económicos subsistem, os
direitos políticos não estão enraizados e podem ser coarctados

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sem dificuldade.
A política não é mais do que a cúpula do edifício societário. Pode ser pintada de mil

maneiras, mas não deixa por isso, de fazer corpo com as paredes que a sustentam. ”

Quanto ao outro apelo da sua mensagem - a promoção do
socialismo -, depois de alguns avanços, com os primeiros passos das
nacionalizações e da reforma agrária no nosso país, tudo voltou a andar
para trás.

Aqui, como na Europa e no Mundo, com o desabar político do
Leste Europeu, que criou um desequilíbrio maligno (como ainda esta semana reconheceu
o insuspeito João Soares, no programa “Circulatura do Quadrado”), chegou o
crescimento da arrogância do capitalismo selvagem já despido de
pruridos, com a onda dos monetaristas de Chicago.

Mas a história não acabou, nem acaba neste tempo de refluxo,
como pretendeu Fukoyama, nem com a rendição de
“eurocomunistas de rosto humano”, “socialistas moderados” ou
sociais-democratas às teses de Gidden, Standing ou de André Gorz
que procuram fornecer um substrato filosófico ao “pós-
iluminismo” ao “pós-modernismo”, a uma “terceira via” que,
como logo se percebeu, não é nenhuma via nova mas apenas o
diáfano manto em que se esconde o abandono de Keynes e até da
“doutrina social da igreja”, e o desaguar na colaboração da maior
exploração do trabalho pelo grande capital.

E embora 2010 tenha sido considerado, pela ONU, o ano em que
a produção global de riqueza alcançou a capacidade de dar boas
condições de vida a toda a população do planeta, as desigualdades
agravaram-se de tal forma que mais de 80% da riqueza criada em
2017 foi parar às mãos aos 1% mais ricos, conforme o relatório da
Oxfam de 2018.

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É essa obscena desigualdade e extensão da miséria num mundo
que cada vez produz mais riqueza, que procura ser justificada
pelos teóricos da chamada sociedade pós-moderna e pós “estado
social”, que defendem as vantagens da “liberdade de não ter
emprego”, o despedimento como “uma nova oportunidade” a
excelência do trabalho pago à peça de uma sociedade pós-salarial,
onde a cada um, cabe, isoladamente e sem qualquer sentido de
solidariedade, encontrar a forma de merecer o que recebe,
porque já nada é possível mudar de essencial, e qualquer
mudança de poder apenas reconstrói um poder sucedâneo com
iguais falhas e defeitos.

É nessas filosofias de “pessimismo social”, em que se apregoa a
ilusória possibilidade de reencontrar o sentido da vida fazendo do
tempo o que se quiser (como se todos fossem fidalgos rentistas
ou milionários), sem os constrangimentos de um “trabalho fixo,
monótono ou repetitivo”, nem salários ou subsídios garantidos
que só alimentam a estagnação e a preguiça, que elogia os
“empreendedores” que criam o próprio emprego, atirando o
desemprego para a responsabilidade individual e não para a
política predadora dos mercados, aceitando, se necessário, “a
felicidade da pobreza”.

Como denuncia Cabral Pinto num seu recente trabalho, “na linha
programática dos governos de Reagan e Clinton, também na
Europa o welfare tomou a forma de workfare (termo difundido
por Nixon).
“Nem todos os pobres estão isentos de culpa. De qualquer forma,
a pobreza, em si mesma não constitui um mal. “Que mal há em ser
pobre?”-, pergunta Giddens com palavras de Charles Murray. A
felicidade não depende de bens materiais. O pobre não tem menos

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hipóteses de ser feliz do que o rico e não é o Estado de bem-estar
que lhe garante felicidade”.

Conversa da treta, poderão dizer, que dificilmente convence
quem sofre as agruras da miséria e a violência da marginalização
social, e que ofende quem trabalha com baixos salários ou
desespera na insegurança da precariedade ou no desemprego,
travando uma constante e alienante luta pela subsistência,
mesmo tendo alguma formação académica.

Conversa cujo sentido ideológico, socialmente regressivo, não
causa dúvidas a quem tem uma compreensão mais profunda das
contradições intrínsecas da sociedade capitalista e da destruição
económica e social que ela arrasta.

Conversa, de resto, que só é sustentada pelo martelar repetitivo
e dominante desse “pensamento único”, impingido como
“normal” e “moderado”, continuamente propagandeado pelos
meios de comunicação que procuram condicionar ou anestesiar a
opinião dos cidadãos, nomeadamente dos mais jovens, levados a
acreditar no “american dream” do neoliberalismo e na capacidade
de, com o esforço, poderem vir a ganhar o Euromilhões.

“Não me façam voltar cá!”, foi a brincalhona ameaça que Mário
Sacramento nos deixou. Será de reconhecer que só não o
fazemos, porque não podemos. Bem falta nos faz poder tê-lo
outra vez, na primeira linha de combate a este agiornamento
teórico da direita neoliberal cada vez mais agressiva e
exploradora.

E se há alguém que se possa interrogar se a sua mente superior,
com o conhecimento das contradições e recuos do evoluir da História ,
poderia ter hoje uma militância diferente da que outrora assumiu

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como comunista e militante do PCP, é porque não percebeu
verdadeiramente a estrutura e as traves mestras da sua forma de
pensar.

Porque uma coisa é ser materialista e dialético, o que implica o
combate a um posicionamento fixista e sectário e o acreditar que
existe um conhecimento científico da evolução social da
humanidade, que, como tal, não está acabado e merece um
constante olhar crítico. Outra muito diferente é abandoná-lo ou
aceitar a sua substituição por estafadas teorias pseudocientíficas
que tentam justificar um futuro imutável condenado a ser injusto
e desumano, num devir de valores ideológicos independentes da
infraestrutura societária e do caracter privado dos meios de
produção.

Como referiu Urbano Tavares Rodrigues, Mário Sacramento
rejeitava a anemia ou a comodidade da indiferença: “A terra de
ninguém só dá cardos, se é que os dá.”.

Mas se ainda houvesse interrogações, bastaria voltar ao que nos
disse, para que não restassem dúvidas:

“Foram já cem os erros do socialismo!? Fossem cem mil – e
socialistas seríamos!”.

Socialistas do tal socialismo cientifico será bom dizer, “sem
dogmatismos sectários, nem radicalismos pequeno-burgueses”,
aprendendo com os erros do passado. Não um socialismo cinzento
e de miséria, não um socialismo de caserna, como os seus inimigos
o descrevem. Enfim, o que os mais preconceitosos ou mais
incultos poderiam designar por pensamento de um comunista
talvez heterodoxo mas com fé (como se o conhecimento racional
fosse uma religião), sem perceberem essa afirmação de abertura

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e compreensão do outro, como uma marca intrínseca de um
marxista coerente.

A História é um que fazer incessante e nunca ninguém viu ou verá
tudo aquilo porque se bateu ou luta, pois algo fica sempre a meio
do caminho”, avisou-nos Mário Sacramento.

Talvez não fosse de esperar que uma personagem de tal estatura,
até depois de morta, pudesse ser tão intencionalmente
menorizada.

Como recentemente escrevi, “o doloso apagamento do seu nome e
da sua obra da memória colectiva do país, não tem desculpa ou
justificação que não seja a da mais rasteira mesquinhez intelectual
e ideológica. Esse arredamento da primeira linha merecida, não se
consegue disfarçar na toponímia de algumas ruas e escolas das
terras onde viveu, sem que a ele se faça a justiça merecida.

E aqui estamos com - citando agora Mário Soares no período de
luto imediato -, “o vivo sentimento de que não se trata de uma
despedida, de uma última homenagem, mas sim uma homenagem
provisória que antecipa a que a Nação um dia lhe prestará.”

Mais uma promessa não cumprida, pelo ex-Presidente da
República que não deixou só o socialismo na gaveta. Não que as
honrarias interessassem minimamente ao nosso homenageado,
se ele ainda aqui estivesse. Sabemos que não. Mas é uma dívida
que nos cabe a nós exigir que seja paga.

Talvez demore mais do que na altura julgávamos. Até aqui, nem
honras nem medalhas, mesmo a título póstumo, como lamentou
o seu neto, já que poucos ou nenhuns mais o mereceriam. Mas
talvez seja melhor assim, pela pobreza de alguma companhia e
pela certeza de que, com os actuais usos e costumes, certamente
as recusaria.

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Quanto a outro ponto, no entanto, estamos de acordo com o ex-
Presidente que não quis cumprir o compromisso quando podia.
Porque se o murchar dos cravos não deixou que a excepcional vida
de resistente e intelectual de Mário Sacramento fosse
devidamente celebrada, todas as singelas homenagens, como a
de agora, apenas antecipam a que um dia toda a Nação lhe
prestará.

“Com dor e fogo, e não com palavras, aqui o repetimos. Para que
não esqueçamos o dever de o mantermos vivo” – como disse
Namora.

Jorge F. Seabra

14-6-2019

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