Intervenção de Carlos Batista, de Barcouço, durante o bom almoço-convívio com que se assinalou, em Barcouço, o aniversário do 25 de Abril. Referência ao falecimento da camarada Sofia Ferreira que esteve no concelho da Mealhada, por duas vezes, há pouco tempo, ajudando a recordar e a dar a conhecer os acontecimentos da sua prisão, juntamente com Álvaro Cunhal e Militão Ribeiro, na vila do Luso.

Prosseguiremos!

Lembramos o 36º aniversário do 25 de Abril, com alguns de nós, se calhar, desiludidos face às expectativas então criadas, muitas delas sem a concretização que então pareceu possível.

Mas o 25 de Abril foi bom! Foi o acender da luz que um regime podre e obsoleto teimava em manter apagada e que já somava 48 anos.

Como em todas as revoluções, a burguesia dificilmente cede os seus privilégios e, com a ajuda daqueles que falam em nome do “socialismo”, iludindo o nosso povo com promessas que depois não cumprem, já conseguiu refazer parte dos seus monopólios. Do outro lado, o mundo do trabalho tem é mais desemprego, salários mais baixos, trabalho sem direitos e sem garantias de futuro, levando a que os jovens não possam pensar em adquirir uma habitação nem constituir família – aliás, direitos consagrados na Constituição de Abril - porque nunca sabem se no dia seguinte ainda terão emprego.

Sabemos que este estado de coisas se deve às três forças partidárias que, desde o 25 de Abril, se perpetuam no poder: PSD, CDS-PP e PS, partidos da direita ou alinhados com ela. É este o alinhamento do PS que tem implantado uma política neoliberal que agudizou o modo de vida do nosso povo, conduzindo a cerca de 650 000 desempregados, mais de 2 milhões de pobres e a muitas outras dramáticas consequências de que nos apercebemos diariamente. É preciso dizer que o PS está a pôr em prática a política que PSD e o CDS há muito desejavam mas que ainda não tinham conseguido concretizar.

Trinta seis anos depois do 25 de Abril, quase tantos como isso de governos que, governando à direita, vão destruindo as expectativas criadas naquela madrugada, tarda a mudança que se impunha. Tardam outras madrugadas que nos libertem. É mais do que altura de outras opções, de dar a possibilidade aos que sempre indicaram outro caminho, aos que sempre denunciaram que a implementação daquelas políticas conduziria à fome, à miséria e ao desemprego. Fome, miséria e desemprego não são inevitabilidades, não são só culpa da “crise”, como hoje pretendem que acreditemos.

Temos que romper com este estado de coisas, de forma a que o espírito revolucionário de transformação da sociedade, nascido em Abril de 74, ressurja! Façamo-lo reviver já, participando nas acções do 1º de Maio, no próximo sábado, em Aveiro, em Coimbra, onde for possível, mas participando. O 25 de Abril ensinou-nos a força da nossa intervenção. O descontentamento pelo rumo do país, das políticas de quem governa, pela vida a que estas nos obrigam, exige que usemos essa força.

Viva o 25 de Abril!

Viva o 1º de Maio, dia de luta necessária!

Cabe aqui, inevitavelmente, uma nota de tristeza pelo falecimento de Sofia Ferreira, militante comunista desde os tempos difíceis da década de 40.

Foi no Luso que foi presa pela primeira vez, em 1949, juntamente com Álvaro Cunhal e Militão Ribeiro, acontecimentos que nos ajudou a evocar há pouco tempo no local. Voltaria a ser presa. Foi torturada pela polícia política do regime fascista. Mais de 13 anos da sua vida foram passados nas prisões fascistas. Até ao fim da sua vida assumiu responsabilidades, assumiu uma extraordinária militância no PCP.

O 25 de Abril tornou-se possível em grande medida por gente como Sofia, gente que não se remeteu ao silêncio, gente que deu a sua vida à luta pelo povo, pelos trabalhadores, pelo fim do breu fascista. O sacrifício, a determinação e a luta de muitos comunistas foram determinantes para que Abril se fizesse.

Os comunistas da Mealhada lamentam o desaparecimento da camarada Sofia Ferreira e, embora os tempos não nos exijam tamanhos sacrifícios e dificuldades como os que marcaram a vida de Sofia, daqui dizemos: aqui estamos, camarada! Prosseguiremos esta luta!

 

Carlos Batista

PCP.Mealhada

 

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